Argonauta

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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

I

Sou colecionador de semelhanças.

Assemelho-me a ventos, cantos e gente.

Sou um compêndio do que há

Em um rearranjo que só eu o faço.

Tento descrever meu ser

E acabo por reciclar palavras.

Encontro-me em neologismos

Só nestes, renovo-me

Não gosto de palavra usada

O novo me encontra.


II

Sou lacuna de propósitos,

Sinto sem o saber sentir

E meu sentimento se escreve

E escrevo por falta de autocontrole.


III

O dia se faz e se desfaz

E eu decresço em visões

Até a hora que adormeço.


IV

No desconforto do meu ser

Proclamo mudanças radicais:

Discorro sobre ventos que nunca senti

Sobre olhos que nunca vi

Sobre amores que nunca tive.


V

Fui regado ao abandono.

Busco vazios que preencham os abandonos,

Pois só do vazio algo pode vir.

Prefiro o vazio que antecede a criação

Ao criado descendente de vazios.

Tenho esse apego ao primordial.


VI

Desenvolvo em recantos

Crio afiliações à natureza

Sou nada senão filho da pedra

Da relva

E da margem do lago.

Encosto ao horizonte

E só no colo do arrebol adormeço.


VII

Um macuco me acordou

Achou que meus dedos fossem sementes

Lembrei do tempo de eu menino

Quando mãe me acordava cedo sem motivo

Puxando-me pelos pés.

O macuco me mostrou o caminho para o rio.


VIII

Já fui convocado a sabiá

Tolo, recusei.


IX

Sonhei que aceitara a convocação.

Acordei chorando,

Sou fraco para ser gente.


X

Um dia, uma árvore me amou.

Eu estava cansado de ceder

Então descansei.

Não sabia que seria minha última vez,

Meus olhos têm propósitos.

Acho que árvore tem olho de futuro

Ela sabia o que estava por vir.

Pinned Post

Outro lado da rua

quando os ventos de cá

tardarem a chegar aí,

quando a saudade for severina,

for fria como águas do Pacífico,

quero que lembres dos poemas

que fiz para ti,

também em tamanha saudade.

você é meu confidente,

meu melhor amigo,

meu cúmplice,

você é o desejo inumano de ser livre,

a vontade nunca defasada de olhar o mar

o último canto de todos os pássaros.

passa, passa, passaredo!

que meu amor me espera

do outro lado da rua.

Turva água que lhe separa

Da verdadeira liberdade.

Suas esquivas lágrimas

São águas de represas.

Corre quente o sangue

Que lhe faz vivo

Vejo os velhos monumentos ruírem

E você ainda de pé.

Nunca foi fácil

E se fosse, você saberia.

Você é apenas um garoto no mundo

Mas se engana se pensa que está só.

Os caminhos enganam,

Mas você é mais esperto.

Queria lhe dar o sumo da liberdade,

Arrancar tuas correntes

E ver-lhe correr solto ao mundo.

Mas a luta ainda não acabou

E, quando tiver cansado,

Durma tranquilo em meus braços

Que a vida é melhor quando dividida.

Eu cuidarei de você

Quando nem você quiser cuidar de si

Para se preocupar apenas em ser.

Forças, meu amor.

Você não está sozinho

Ela entendia o quanto aquele mundo dela não era. Mas manteve-se conscientemente inconsciente sobre isso, fazendo-se de tola todo dia. Ela bem sabia que nada que tocava, que via, que sentia, a representava, mas aproveitou o tempo que tinha, como um estrangeiro que faz de sua casa qualquer lugar que vai.

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